Ítalo Martins, Robério Diógenes, Wagner Moura e Igor de Araújo em cena de O Agente Secreto — Foto: CinemaScópio/Divulgação |
Recife, 1977. Uma perna humana decepada é encontrada dentro de uma carcaça de tubarão.
O filme Tubarão continua causando frisson nas platéias, mesmo após 2 anos de sua estreia original.
Enquanto o sucesso de Spielberg, considerado a base do conceito de blockbuster, aterroriza e entretém o público com a violência sugerida de suas cenas, a brutalidade nas ruas da capital pernambucana não poderia ser mais real.
As mortes no Carnaval local ultrapassam a faixa de 90, com espaço de sobra pras estatísticas aumentarem.
Com a Ditadura Militar instalada no Brasil há mais de uma década, uma espécie de estado de exceção permanente parece ter se tornado regra no país. Pessoas são sequestradas e assassinadas, as leis parecem operar mais contra a população do que a favor dela.
O senso de impunidade calcificado pelo regime autoritário faz com que a mídia recorra à invenção de uma entidade folclórica para justificar ataques sofridos por transeuntes. É este o cenário encontrado por Marcelo (Wagner Moura) ao voltar para Recife, sua cidade-natal. Fugido de São Paulo por sofrer perseguição política, o pesquisador se instala numa espécie de abrigo para dissidentes procurados pela Ditadura enquanto tenta se reconectar com seu filho e usar de sua influência de seu cargo no Instituto de Identificação para buscar por documentos de sua falecida mãe.
Mas o clima de paranoia se espalha por todos os cantos e a sensação de ameaça se aproxima cada vez mais.
| Wagner Moura em cena de O Agente Secreto — Foto: CinemaScópio/Divulgação |
O protagonista de O Agente Secreto, Marcelo, não é agente secreto nenhum. Ele sequer se chama Marcelo de verdade! Mas é forçado a adotar uma nova identidade e viver na clandestinidade por causa dos interesses da elite e do funcionamento deliberadamente conveniente das leis de uma nação refém de um regime militar.
Porém não se trata de um filme didático em relação aos acontecimentos do período que retrata: aqui temos uma preocupação muito mais focada em construir uma atmosfera de tensão, mas também de conforto, baseada em elementos históricos, estéticos e culturais do Brasil da década de 1970. Ainda que a violência envolvendo militares não esteja explicitamente em tela, a onipresença do retrato do General Ernesto Geisel, presidente da época, pendurado em escritórios de repartições e órgãos públicos não deixa sombra de dúvidas: os olhos do regime estão em todo lugar. E não se sabe em quem é possível confiar.
Passado no período da Redemocratização do Brasil, O Agente Secreto enfatiza o sentimento de moratória ética vivida no país, uma espécie de coronelismo urbano que opera numa lógica de faroeste, sublinhado por uma cegueira seletiva em relação às pessoas que devem ou não ser punidas pela lei. O clima de bang-bang é intensificado pela presença de matadores de aluguel, perseguições com armas em punho e, esteticamente, pelo uso de lentes anamórficas Panavision que fazem a imagem se espalhar generosamente pela tela sugerindo um campo de visão maior. As escolhas estéticas da ótima direção de fotografia da francesa Evgenia Alexandrova valorizam muito bem os belos planos do filme, ressaltando suas texturas, seus detalhes e, principalmente, suas cores.
A paleta vibrante contrasta com a temática do longa sem nunca destoar de sua proposta austera, mas abrindo margem para um detalhe definidor do novo filme de Kleber Mendonça Filho: O Agente Secreto, acima de tudo, é um filme caloroso.
| Robson Andrade e Tânia Maria em cena de O Agente Secreto — Foto: CinemaScópio/Divulgação |
Seja pelos tons quentes vistos em tela, seja pelo tesão aparentemente incontrolável do Carnaval pernambucano, o longa opta por dar destaque ao senso de comunidade e trivialidade da população frente às ameaças não-declaradas da realidade retratada. O conceito de um coletivo de pessoas escondidas pra fugir das leis de seu próprio país soa soturno, mas a construção do núcleo subverte as expectativas do público e rende cenas afetuosas, especialmente por causa da presença solar da personagem Dona Sebastiana, a espirituosa Tânia Maria que rouba a cena toda vez que surge em tela.
Sendo apaixonado por Recife e tendo a capital como personagem fixa de seus filmes, Kleber deixa explícito o carinho por sua cidade-natal em cada frame. Recife aqui é um organismo vivo e pulsante, cheio de figuras peculiares e marcantes que exercem sua influência para torná-lo um lugar ora acolhedor, ora ameaçador.
O excelente trabalho do departamento de Arte de O Agente Secreto aposta alto na reconstituição de época: a combinação de cenários, figurinos evidencia o cuidado com os detalhes e eleva o nível do filme a um patamar impressionante. A estilização e os maneirismos da identidade cinematográfica de Kleber estão ainda mais perceptíveis aqui. O estabelecimento de momentos grandiosos e cheios de camadas e de possibilidades deixa palpável um conhecimento de técnica e um repertório de referências admiráveis. Elementos que poderiam soar gratuitos ou discrepantes nas mãos de outra pessoa, são usados como Kleber como pequenas doses de combustível para enriquecer ainda mais o universo que ele conhece tão bem. E é com esta proposta de minimalismo maximalista que a Recife criada por Kleber se torna tão rica, com sua pletora de sotaques, lugares e canções matadoras. A segurança em do cineasta pernambucano permite a ele ousar se permitir brincar com as expectativas e fazer rir em meio ao trauma coletivo generalizado de uma nação. Kleber extrai comicidade dos absurdos inerentemente brasileiros da trama e mistura realidade e ficção da forma mais sem vergonha possível. Ainda bem!
| Hermila Guedes, Licínio Januário, Lula Terra, Wagner Moura, João Vitor Silva e Isabél Zuaa em O Agente Secreto — Foto: CinemaScópio/Divulgação |
Um caldeirão multi-gênero de ritmo impecável, este jovem clássico é o filme mais ambicioso da carreira de Kleber Mendonça Filho até aqui. Sofisticado e refinado, mas sem deixar de lado a veia pulp debochada tão charmosa do estilo do diretor, O Agente Secreto faz questão de não ser o que esperam dele. Ainda que apresente cenas brutais pontuais, parece se recusar a aderir a uma proposta de espetacularização ou banalização da violência, provavelmente frustrando quem se deixou enganar pelo título. Servindo como uma dobradinha perfeita para o documentário Retratos Fantasmas, a nova empreitada de Kleber já entrou pra História.